13/11/2009
“Minha cidade começa em mim”, motivados por esse slogan, jovens resgatam memória dos bairros onde vivem
Sem se quer imaginar que poderiam encontrar cabos de espadas de possíveis piratas ou barcos antigos a beira de um estaleiro, 20 jovens da Barra do Ceará saíram ontem numa aventura muito saudável pelas ruas do bairro. Ao invés de ficarem em casa assistindo “Indiana Jones” pela televisão, eles fizeram uma pequena expedição por terra e quase viajam na antiga embarcação do “Seu Vicente”, 76, que trabalha há 40 anos numa oficina de solda à beira do Rio Ceará.
Na primeira incursão do curso “Patrimônio para Todos”, que visa mapear a cultura de diversas comunidades em Fortaleza, os jovens ouviram histórias, lendárias ou não, dos antigos moradores. Munidos de câmaras, bandanas, blocos e diversos materiais de registro eles adentraram em lugares até bem pouco tempo desconhecidos pelo grupo, como as salinas.
Enquanto seu Vicente mostrava as peças que dizia ter sido encontrada por mergulhadores à beira do rio, como o cabo de espada, dona Carmem Silva explicava como funciona o Estaleiro Corenave, onde são construídos e consertados vários tipos de embarcações como rebocadores e pesqueiros.
A “expedição” que já dura uma semana, envolve, além dos 20 jovens inscritos, uma equipe de facilitadores. Entre historiadores, técnicos de audiovisual e educadores patrimoniais, o projeto realizado pelo Governo do Estado, por meio do Instituto de Arte e Cultura do Ceará e Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu, conta com a cobertura de guardas municipais para a realização dos passeios.
A Barra do Ceará foi o primeiro local contemplado pelo projeto, que deve percorrer, até o dia 11 de dezembro, as seis Secretarias Executivas Regionais. A comunidade do Titanzinho será a próxima visitada.
A metodologia
O material colhido será transformado em textos, ilustrações, fotografias e diversas manifestações artísticas e culturais, todas feitas pelos jovens envolvidos no projeto. A primeira delas, que já funciona com sucesso, é o blog www.patrimonioparatodos.wordpress.com
De acordo com o historiador e coordenador pedagógico do projeto, João Paulo Vieira Neto, os jovens são estimulados a resgatar a memória dos pescadores, rezadeiras e outros personagens importantes para a história local, de modo que compreendam o valor destes para a preservação patrimonial.
“Elaboramos com muito carinho uma cartilha que traz propostas de atividade, além da mochila com a caixa de memórias que contém caderno, canetas de desenho, giz de cera e blocos de anotações”, disse.
Ao conversarem com os moradores do bairro, eles criam os roteiros de perguntas e se interessam pelas questões sociais. Na tarde de ontem, quando perguntavam sobre aspectos cotidianos do bairro, ouviam queixas sobre prostituição, assaltos, conivência policial com o crime e o consumo e venda de drogas.
A estudante Deilane Souza,19, ficou surpresa com o passeio, “nem dá pra acreditar que eu moro aqui há tanto tempo e não conhecia quase nada”.
Já o estudante Gilberto Morais disse que ficou curioso em saber, onde foi construída a primeira casa da comunidade.
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Apropriação do patrimônio cultural local
João Paulo Vieira Neto*
A história ganha um novo sentido a partir da inclusão de temáticas ligadas ao cotidiano dos educandos. Acredito que eles já estejam fartos do ensino tradicional, vinculado a uma memorização sistemática de datas, fatos e heróis que buscam legitimar uma suposta História da Nação.
Identificação, registro, valorização e (re)significação dos bens culturais locais tornam-se potenciais vetores para elevação das autoestimas individual e coletiva. Outro valor da educação patrimonial é o auto-reconhecimento dos participantes enquanto sujeitos históricos capazes de atuar criticamente sobre a realidade em que vivem.
Pensar na democratização de políticas patrimoniais é contemplar a multiplicidade de experiências sociais, garantindo participação popular nos processos de seleção do que deve ser lembrado ou esquecido, do que deve ser preservado.
*Historiador e coord. pedagógico do Projeto Patrimônio para Todos
JANAYDE GONÇALVES
REPÓRTER
Dia inteiro para ler e desenhar O Dia Nacional do Livro Infantil foi comemorado na Escola de Artes e Ofícios 18 Abr 2009 -Mais de 400 crianças encheram o casarão antigo onde funciona a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho (EAO) na manhã de ontem, em comemoração ao Dia Nacional do Livro Infantil que ocorre hoje. Alunos visitantes se juntaram a crianças da comunidade em sessões de cinema e oficinas de brinquedo, pintura e xilogravura; com lanche e sorteio de brindes. Reconhecida pelos cursos profissionalizantes em arte e patrimônio para jovens e adultos, a escola agora se abre ao público infantil com atividades lúdicas e educativas. A programação continuou até o fim da tarde. Em volta de uma mesa na varanda em frente à biblioteca, quatro meninos liam, desenhavam e pintavam. Mateus Lima, Leonardo Sousa e os irmãos Lucas e Mateus Carneiro, entre 9 e 13 anos, moram perto da Escola e passeiam por lá “todos os dias”. Respondem rápido quando se pergunta do que eles gostam mais: “a ilha digital e a biblioteca”. E a bibliotecária Débora Sousa já os conhece. Assim como outras crianças do bairro, os meninos fazem ali suas pesquisas escolares e se distraem desenhando, segundo Débora. Segundo a coordenadora pedagógica Francineide Chaves, a programação permanente será ampliada para atender a escolas públicas e crianças do bairro. Há um edital a ser lançado até o segundo semestre deste ano para beneficiar escolas públicas, levando cursos da escola a estudantes e educadores, informa a coordenadora.
Trabalhos de Leonilson expostos na Unifor: entre brinquedos e objetos, o artista expressa seus sentimentos do mundo (Foto: PATRÍCIA ARAÚJO)